Em 2018, comecei a trabalhar com famílias imigrantes na região metropolitana de Boston. Minha esposa e eu fazíamos visitas terapêuticas semanais em domicílio — comparecíamos às casas das pessoas, apoiávamos os pais e fortalecíamos o vínculo entre eles e seus filhos.
O que vi nessas casas mudou a minha compreensão dos relacionamentos.
Uma das dinâmicas mais comuns que encontramos foi a de famílias imigrantes em que os pais se apegavam fortemente à sua cultura de origem, enquanto os filhos eram moldados inteiramente pela cultura americana. A desconexão era impressionante. Vimos crianças que rejeitavam o idioma dos pais — crianças que se recusavam a falar português em casa, mesmo que seus pais mal falassem inglês. Famílias inteiras onde pais e filhos não conseguiam se comunicar plenamente. Não porque não se amassem, mas porque a cultura e o idioma haviam silenciosamente construído um muro entre eles.
Essa experiência plantou uma semente que germinou e se tornou o trabalho que realizo hoje.
Quando comecei a trabalhar com casais interculturais
Em 2021, meu foco clínico mudou. Comecei a atender casais interculturais — e um padrão se tornou especialmente comum na minha prática: casais americanos casados com parceiros brasileiros.
O que me fascinava era como esses casais se encontravam. As histórias eram todas diferentes — alguns se conheceram viajando, outros online, alguns por meio de amigos, alguns por pura coincidência. Mas todos tinham algo em comum: haviam escolhido um ao outro, superando a barreira cultural, e essa escolha era linda.
Lembro-me de estar em sessões com casais em que um dos parceiros mal falava inglês e o outro mal falava português — mas lá estavam eles. Comparecendo. Tentando fazer dar certo. Às vezes, eu me tornava a intérprete no meio da sessão, traduzindo não apenas palavras, mas o peso emocional por trás delas.
Há algo profundamente comovente em observar duas pessoas lutando por um relacionamento quando nem sequer conseguem se expressar plenamente no mesmo idioma.
A beleza e a dor
Mas, junto com a beleza, também vi o preço.
Vi como as diferenças culturais — aquelas sobre as quais ninguém te avisa antes de você se apaixonar — podem, aos poucos, criar desconexão, isolamento e tristeza. Não o tipo dramático. O tipo silencioso. Aquele em que você para de tentar se explicar porque sente que seu parceiro nunca vai entender completamente de onde você vem.
Lembro-me de um casal em que todas as festas de fim de ano se transformavam em uma batalha silenciosa. O parceiro brasileiro queria uma grande e barulhenta reunião familiar na véspera de Natal — como sempre faziam em seu país. O parceiro americano queria uma manhã tranquila, só os dois. Nenhum dos dois estava errado. Mas, todo dezembro, a tensão retornava e, a cada ano, se aprofundava um pouco mais. Não se tratava do feriado em si. Tratava-se de qual cultura definiria o que era “lar”.
Esse padrão — tácito, recorrente e profundamente pessoal — é algo que observei em quase todos os casais interculturais com os quais trabalhei. O tema muda, mas a pergunta subjacente é sempre a mesma: em qual mundo vivemos?
Ao longo dos anos, aprendi o que realmente ajuda. Aqui estão quatro coisas que consistentemente fazem a diferença.
1. Reconhecer a linguagem e os ritmos culturais uns dos outros
Casais interculturais não precisam se tornar especialistas na cultura um do outro. Mas precisam ter clareza sobre as diferenças culturais que existem entre eles — para que possam reconhecê-las quando surgirem conflitos.
Por exemplo, a cultura brasileira tende a ser bastante coletivista. Os limites pessoais são mais fluidos e a expressão emocional é aberta e física. A família não é apenas importante — é central para a identidade. As decisões são frequentemente tomadas coletivamente e aparecer sem avisar é um ato de amor, não uma intrusão.
A cultura americana, por outro lado, tende a valorizar mais o individualismo. O espaço pessoal é respeitado. Os limites são claros. A independência é um sinal de maturidade. A família é importante, mas a autonomia é esperada.
Nenhuma abordagem é melhor que a outra. Mas quando esses dois ritmos colidem em uma mesma casa — em feriados, com os sogros, na criação dos filhos ou até mesmo na forma como o afeto é demonstrado — o resultado pode ser percebido como uma rejeição pessoal em vez de uma diferença cultural.
Reconhecer o padrão é o primeiro passo. Quando um casal consegue dizer: “Esta é uma diferença cultural, não uma falha de caráter”, a conversa muda completamente.
E não se trata apenas de diferenças. Os casais também se beneficiam ao identificar suas semelhanças culturais — os valores, crenças e ritmos compartilhados que os uniram inicialmente. Essas semelhanças são a base sobre a qual tudo o mais se constrói.
2. Aprenda como seu parceiro precisa se comunicar — e diga o que você precisa
Cada pessoa tem um estilo de comunicação moldado por sua cultura, sua família e sua personalidade. Alguns parceiros preferem uma comunicação sutil e indireta — onde o significado reside nas entrelinhas, no tom de voz e nos gestos, no que não é dito. Outros preferem uma comunicação direta e aberta — onde a clareza importa mais do que a sutileza.
Em relacionamentos interculturais, esses estilos frequentemente entram em conflito. Um parceiro sente que o outro é “frio” ou “direto demais”. O outro sente que seu parceiro é “pouco claro” ou “passivo-agressivo”. Ambos estão simplesmente se comunicando da maneira como sua cultura os ensinou.
O que ajuda é nomear isso. Cada parceiro precisa entender suas próprias preferências de comunicação, articulá-las claramente e — esta é a parte mais difícil — aprender a respeitar o estilo do outro sem tentar mudá-lo.
Isso vai além das palavras. Casais interculturais também precisam respeitar e honrar as práticas culturais um do outro — tanto aquelas que cada parceiro trouxe para o relacionamento antes do casamento quanto as novas tradições que construíram juntos. A cultura não é algo que se deixa na porta quando se vai morar junto. É algo que você integra à vida que compartilha.
3. Construa sua própria cultura compartilhada
Este é o aspecto que a maioria dos casais ignora — e o que mais importa a longo prazo.
Casais interculturais não podem simplesmente copiar o manual de outra pessoa. O que funcionou para o casamento dos seus pais foi construído dentro de uma única cultura. O seu casamento existe entre duas. Os casais interculturais mais fortes com quem trabalhei são aqueles que param de tentar escolher uma cultura em detrimento da outra e começam a construir algo novo juntos.
Isso pode significar criar suas próprias tradições de feriado que misturem as duas culturas. Pode significar decidir juntos como as visitas familiares funcionarão — não com base no que os pais de cada um esperam, mas sim no que funciona para vocês como casal. Pode significar cozinhar juntos pratos de ambas as culturas, falar os dois idiomas em casa ou encontrar rituais que não pertençam a nenhuma das duas culturas, mas que sejam totalmente seus.
Quando um casal constrói uma cultura compartilhada, eles param de discutir sobre qual caminho está certo. Eles começam a construir um terceiro caminho — o caminho deles. E é aí que o relacionamento se firma.
4. Mantenha-se presente — especialmente quando for difícil
Quando surge um conflito, o instinto natural de muitas pessoas é se retrair — se fechar, se afastar ou desaparecer em silêncio. Em relacionamentos interculturais, essa tendência pode ser ainda mais forte, porque a frustração de não ser compreendido em um nível cultural adiciona uma camada extra de exaustão.
Mas é na desconexão que os relacionamentos morrem silenciosamente. Não nas grandes brigas, mas nos longos silêncios que se seguem.
O que eu digo aos meus casais é o seguinte: se as coisas esquentarem, façam uma pausa. Afastem-se, respirem, recomponham-se. Mas não deixem essa pausa se estender por mais de 24 horas. Voltem. Permaneçam presentes. Mesmo que não tenham as palavras certas — em qualquer idioma —, estar presente diz muito mais do que o silêncio jamais dirá.
O trabalho continua
Passei anos acompanhando casais interculturais, traduzindo não apenas idiomas, mas visões de mundo inteiras. E o que aprendi é que os casais que dão certo não são aqueles sem diferenças. São aqueles que escolhem compreender essas diferenças em vez de se ressentirem delas.
Se você está em um relacionamento intercultural e algo neste post lhe chamou a atenção, siga nosso blog. Tem muito mais por vir. E se você está pronto para fazer esse trabalho com orientação, estou aqui para ajudar.
Leitura recomendada
Casamento Intercultural: Promessas e Armadilhas, de Dugan Romano — O guia essencial para qualquer casal que navega entre duas culturas. Get it on Amazon
Discutindo Certo: Como Casais Bem-Sucedidos Transformam Conflitos em Conexão, de John e Julie Gottman — Como transformar conflitos em conexão, pelos principais pesquisadores em terapia de casais. Get it on Amazon
Supercomunicadores: Como Desvendar a Linguagem Secreta da Conexão, de Charles Duhigg — Uma análise fascinante de como pessoas com perspectivas diferentes podem realmente se entender. Get it on Amazon
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