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Artigos e Reflexões

Na Living Better Therapy, nosso blog é um espaço dedicado à saúde mental, ao bem-estar emocional e a relacionamentos mais saudáveis. Aqui, você encontrará artigos e reflexões sobre terapia de casal, crescimento pessoal, comunicação, ansiedade e aconselhamento conjugal – tudo criado para apoiar indivíduos e casais na construção de vidas mais equilibradas, conectadas e gratificantes.

Happy couple in process of intensive couple therapy

Quando o Desejo Sexual Fica Dessincronizado Após o Bebê

Poucas coisas abalam tanto a intimidade de um casal quanto a chegada de um filho — especialmente no que diz respeito ao desejo, que muda para ambos os parceiros, em velocidades diferentes, e quase sempre os pega de surpresa.

Escrevo isso como terapeuta de casais, mas também como alguém que já caminhou por esse deserto no próprio casamento. É justamente a combinação desses dois papeis que me faz querer oferecer algo prático aqui — pelo lado psicológico e, para quem tem fé, pelo lado espiritual também.

A expectativa que engana

Existe uma crença silenciosa, muito comum especialmente entre os homens, de que o período pós-parto é apenas uma questão de esperar a janela de recuperação passar. “São cerca de seis semanas e depois tudo volta ao normal.”

Não volta — pelo menos não da forma como foi imaginado.

O corpo da mulher mudou. Os hormônios da amamentação afetam diretamente a libido. O sono desaparece nos primeiros meses. A rotina que dava estabilidade ao casal não existe mais. E, com frequência, um dos parceiros — às vezes ambos — passa por um período depressivo. Nesse cenário, o desejo não descansa da mesma forma para as duas pessoas: uma pode estar pronta para retomar muito antes da outra.

Quando essa expectativa não é atendida, o parceiro que estava esperando o “normal” retornar costuma reagir com uma mistura de raiva e tristeza — e, no calor da frustração, perde toda a capacidade de ver o lado do outro.

Sejamos honestos: geralmente é o homem. Há mulheres que retomam a vida sexual antes mesmo das seis semanas, mas para muitas — arrisco dizer, para a maioria — não é assim que funciona.

O ressentimento que vazando

Eis o mecanismo que vejo arruinar as conversas dos casais repetidamente — e que eu mesmo já vivenciei:

O ponto central

Você pode dominar todas as técnicas de comunicação do mundo. Se não desempacotar as camadas profundas de ressentimento e a sensação de injustiça por baixo, elas vão vazar de qualquer maneira.

Quando uma pessoa sente que está sendo tratada de forma injusta, ela desenvolve uma tendência a buscar compensação. Isso é mais comum do que parece: muitas pessoas carregam, sem perceber, a sensação de que há uma dívida a ser cobrada. Você sente que o outro lhe deve algo.

E então vêm as conversas — geralmente cheias de boas intenções — que a outra pessoa percebe como controladoras, cheias de críticas, desprezo e até uma “honestidade” que não é honestidade de verdade. O parceiro acredita que está “apenas sendo honesto”, quando na verdade está cheio de autojustificativa e ressentimento. Ele começa a interpretar a dificuldade do outro com o sexo como sendo “complicado” ou “fazendo tempestade em copo d’água” (e, sejamos francos, geralmente é o homem pensando isso da mulher). Por baixo da assincronia, muitas pessoas se sentem profundamente rejeitadas — e usam a culpa como ferramenta de pressão.

Para quem vive em um contexto de fé, isso pode piorar. Versículos sobre o corpo pertencer ao cônjuge, sobre não se privarem sexualmente, deixam de ser um convite ao cuidado mútuo e se tornam uma arma de cobrança. Em vez de aproximar, amplificam o ressentimento e aquela sensação de uma dívida a ser cobrada.

Então, vamos ao que interessa: alguns passos práticos para lidar com a assincronia do desejo.

I - Discernir o problema

Vejo muitos casais apressados em apontar o dedo, apressados em fechar uma conclusão sobre qual é o problema. A verdade é que, se você chegar a uma conclusão com o conjunto errado de emoções, vai errar feio. Vai parecer certo — mas se você concluir algo tomado por ressentimento e raiva, provavelmente vai irradiar isso para o seu cônjuge, e a conversa terminará em frustração. Mesmo com as melhores intenções do mundo.

Aqui está algo que quero te dizer: você não precisa resolver tudo na hora. Não há nada de errado em pedir um tempo e espaço para discernir o que está acontecendo.

Passei por isso no meu próprio casamento — inclusive sobre este mesmo tema. Tentei conversar com minha esposa sem discernimento algum, carregando sentimentos de rejeição e frustração. Adivinha como foi? Pois é. As conversas não foram boas. Foram improdutivas.

Você quer uma boa conversa com seu cônjuge — uma em que ambos sintam que estão caminhando para um lugar melhor. Portanto, antes de chegar a uma conclusão, antes de apontar o dedo, antes mesmo de expressar o que está sentindo, tente entender o que está acontecendo dentro de você.

É um trabalho interno primeiro. No meu caso, isso aconteceu por meio da oração — para outros, pode ser uma reflexão silenciosa ou terapia individual. Mas a pergunta nunca é “como faço para a outra pessoa mudar?”. É: “qual é a minha parte nisso? O que estou realmente sentindo? Por que me sinto tão rejeitado?”

Este é o passo mais difícil, e serei direto sobre o motivo: admitir o próprio sentimento — que muitas vezes é tristeza, não raiva — costuma ser mais difícil do que brigar. Brigar é confortável: expõe o outro e protege você. Mas admitir que está triste é outra coisa. Admitir que tem medo de nunca ter uma vida sexual satisfatória no seu casamento é ainda outra coisa. Chegar a esses lugares de vulnerabilidade exige uma coragem que a maioria de nós prefere evitar.

II - Externalizar o problema

Agora que você identificou o que sente e fez o trabalho de discernimento, tente externalizar o problema — na versão mais generosa possível.

Não transforme seu parceiro no problema. Sua esposa não é “fria”, seu marido não é “insensível”. Rotular assim só leva à defensiva, porque o outro se sente acusado e criticado. E você também não é o problema.

O problema é a assincronia no desejo — e isso é uma terceira coisa, que fica fora de vocês dois. No momento em que o casal para de se ver como adversários e passa a olhar para o problema lado a lado, como um obstáculo compartilhado, toda a natureza da conversa muda.

III - Comunicar-se como um "nós", sem táticas escondidas

Após o trabalho interno — discernir e externalizar —, vem a conversa. E ela funciona de maneira completamente diferente quando você se apresenta como parte de um “nós”, e não como alguém com uma solução pronta e uma exigência disfarçada.

É comum imaginar que a solução é óbvia: aumentar a frequência, e ponto. Mas nem sempre é assim. Vale a pena se perguntar honestamente: e se aumentar a frequência não resolver o que está por baixo? Quem garante que a insatisfação não voltará depois de um tempo? Essa dúvida, longe de enfraquecer a conversa, a torna mais verdadeira — porque você para de negociar uma exigência e começa a compartilhar uma vulnerabilidade.

Duas coisas fazem uma enorme diferença quando você fala. Primeiro, o tom: expressar uma necessidade com habilidade, sem acusação, de forma positiva, é o que determina se o outro vai escutar ou se defender. Compare as duas versões abaixo.

Tom que fecha a porta:

“Estou realmente insatisfeito sexualmente. Há algo de errado com você por não querer sexo.”

Acusação, crítica e insatisfação no mesmo pacote — o outro só pode se defender.

Tom que abre a porta:

“Amor, você não acha que merecemos uma vida sexual mais vibrante? Eu gostaria que nos sentíssemos mais conectados.”

Mesmo desejo, direção oposta. Saiu do impasse de ataque e defesa e se tornou um convite — com o “nós” no centro, em vez de um dedo apontado.

(Veja este artigo sobre como dizer o que precisamos do nosso parceiro, que explica isso em detalhes.)

Segundo, a ausência de cobrança velada: ir para a conversa sem cobrar secretamente uma dívida, sem punir o outro pela injustiça que você sentiu, é o que torna o ambiente seguro. E aqui está a parte contraintuitiva — você pode fazer o pedido com coragem, ouvir um “não” e ainda assim considerar a conversa um sucesso, porque o objetivo nunca foi vencer, mas sim se aproximar por meio da verdade. Muitas pessoas sentem um alívio enorme apenas por terem tido uma conversa honesta nesse nível.

O que a tradição cristã oferece

Para quem tem fé — no meu caso, a fé cristã —, há um recurso pouco explorado sobre este tema. Mas é delicado, arriscado e um pouco contraintuitivo.

O apóstolo Paulo escreve, em Filipenses 4, que aprendeu a estar satisfeito em toda e qualquer circunstância — tanto na fartura quanto na necessidade.

"Aprendi a viver contente em toda e qualquer situação. Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura... Tudo posso naquele que me fortalece." - Filipenses 4

Espere — não feche a página ainda. Sei que parece demais pensar dessa forma. Muitas pessoas nem conseguem imaginar uma vida com menos sexo do que gostariam.

Mas isso não significa se resignar a um casamento insatisfatório. Significa que existe uma alternativa a exigir que o outro mude para que você fique bem: aprender a não ser refém do seu próprio desejo. Entre pressionar por mais frequência e cultivar o contentamento em qualquer circunstância, o segundo caminho quase sempre fortalece mais o casamento — e liberta você de colocar todo o seu bem-estar na resposta da outra pessoa.

"Parece inconcebível. Mas é libertador quando acontece."

Há também um trabalho interno honesto em olhar para si mesmo. A insatisfação sexual não tratada tende a alimentar pensamentos e impulsos que preferiríamos não examinar. Reconhecer isso em si mesmo — sem uma culpa paralisante, mas com clareza — faz parte do processo, e isso costuma ficar mais visível justamente quando a pessoa está disposta a refletir com sinceridade.

Em resumo

1

Faça o trabalho interno primeiro

Ore, reflita ou busque terapia — não para fazer o outro mudar, mas para entender a sua própria parte no impasse.

2

Discirna o que você realmente sente

Muitas vezes, por baixo da raiva, há uma tristeza que dá mais medo de admitir.

3

Externalize o problema

Seu parceiro não é o inimigo; a assincronia de desejo é uma terceira coisa que vocês enfrentam juntos.

4

Comunique-se com coragem, sem táticas

Tom positivo, pedido honesto, sem exigências ocultas — mesmo que a resposta seja “não”.

5

Aja como uma equipe, não de forma individual

Busque o fortalecimento relacional, onde vocês agem juntos, em vez de um poder individual que desconecta você do seu parceiro.

Se você e seu parceiro estão passando por essa assincronia após a chegada de um filho — ou em qualquer outra fase —, saiba que isso é comum, que não significa que seu casamento está fracassando e que vocês podem passar por isso sem que ninguém saia derrotado.

Para se aprofundar

Três livros que aprofundam o que cobrimos aqui, especialmente para casais de fé:

And Baby Makes Three

O plano de seis passos dos Gottman para proteger a intimidade após a chegada do bebê.

Restoring the Pleasure

Sobre a reconstrução da intimidade sexual no casamento.

The Seven Principles for Making Marriage Work

Os fundamentos de Gottman para um casamento sólido.

Rethinking Sexuality

Uma visão da sexualidade fundamentada na fé.

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Guia gratuito

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Sobre o Autor

Sou Léo Batalha — terapeuta de casais licenciado, brasileiro e imigrante. Sou especializado em casais interculturais, especialmente casais brasileiro-americanos que vivem a convivência entre duas culturas, dois idiomas e um único relacionamento. As sessões estão disponíveis online em inglês e português para residentes de Nevada, Flórida, Nova Jersey, Massachusetts e Nova Hampshire.