Eu já trabalhava com terapia de casal há alguns meses quando uma cliente me fez uma pergunta que eu não soube responder. A pergunta dela me levou por um caminho que mudou completamente a forma como trabalho com casais prestes a se divorciar.
Nota: A história a seguir é real. Nomes e detalhes que permitam a identificação foram alterados para proteger a privacidade.
Era março de 2021. Eu trabalhava na Embrace Pathways, uma clínica de aconselhamento em Massachusetts. Era um dos meus primeiros casais — e lembro-me de sentir nervosismo. Meu inglês ainda não estava no nível que eu desejava e estar ali com duas pessoas em crise, tentando conduzir a sessão, era algo para o qual eu não estava totalmente preparada.
Vou chamá-los de Sarah e David. Ela havia agendado a consulta. Ele estava lá — mas mal parecia presente. Dava para perceber isso no instante em que entraram. Ela se inclinou para a frente. Ele se recostou. Ela manteve contato visual. Ele olhou para o chão.
Fiz a pergunta que sempre faço em uma primeira sessão: “O que traz vocês aqui? O que está acontecendo no relacionamento de vocês?”
Sarah respondeu imediatamente: “Quero que ele entenda a seriedade do relacionamento.”
David não disse quase nada.
Do quarto
O que eu observava era algo para o qual eu ainda não tinha nome — uma dinâmica em que um dos parceiros tenta desesperadamente salvar algo de que o outro já começou a abrir mão. Ela era quem buscava a aproximação; ele, quem se retraía. Ela tentava levá-lo à terapia; ele apenas tolerava a situação.
Realizamos várias sessões. Nada avançava. Eu tentava facilitar conversas sobre necessidades, comunicação e compreensão. Mas, quanto mais ela insistia, mais ele se afastava. Estávamos andando em círculos.
Então, um dia, Sarah me fez uma pergunta inesperada.
“Você trabalha com aconselhamento para discernimento conjugal?”
Eu nunca tinha ouvido falar desse termo. Respondi honestamente: não, não trabalho. Não estou familiarizada com isso.
Ela assentiu e a sessão continuou. Mas algo ficou na minha cabeça depois que elas saíram naquele dia. Ela sabia algo que eu não sabia. E fosse o que fosse, ela estava procurando por isso — o que significava que ela precisava de algo que eu não estava oferecendo.
Voltei para casa e comecei a ler. O que descobri mudou a minha forma de pensar sobre terapia de casal.
O que é o Aconselhamento de Discernimento?
O Aconselhamento de Discernimento é um processo estruturado e de curta duração, desenvolvido pelo Dr. Bill Doherty, professor e terapeuta familiar da Universidade de Minnesota. Ele foi criado especificamente para casais em que um ou ambos os parceiros estão indecisos sobre permanecer ou não no casamento.
Não se trata de terapia de casal. Essa distinção é de extrema importância — e voltarei a falar sobre ela.
O processo envolve, tipicamente, de uma a cinco sessões. O terapeuta atende o casal tanto em conjunto quanto individualmente, dentro da mesma sessão. O objetivo não é resolver os problemas do relacionamento, mas sim ajudar ambos os parceiros a obter clareza suficiente para tomar uma decisão consciente e informada sobre os próximos passos.
~30%
Casais que iniciam a terapia frequentemente apresentam uma “agenda mista”: um dos parceiros está empenhado em trabalhar no relacionamento, enquanto o outro tende a querer terminar a relação. Prosseguir com a terapia de casal nessa situação muitas vezes piora a situação, em vez de melhorá-la. (Doherty, W.J. — Pesquisa sobre *Discernment Counseling*)
Doherty identificou o que chamou de “casais com agendas divergentes” — situação em que um dos parceiros está “inclinado a ficar” (comprometido em salvar o casamento) e o outro, “inclinado a sair” (considerando ou planejando ir embora). Era exatamente isso que eu observava em Sarah e David, sem ter as palavras para definir a situação.
O que o Aconselhamento de Discernimento NÃO é
- Não se trata de terapia de casal. Vocês ainda não estão trabalhando no relacionamento — estão decidindo se vão fazê-lo.
- Não se trata de mediação. O terapeuta não é neutro em relação a ficar ou partir.
- Não é uma ferramenta para convencer ninguém a ficar ou ir embora. O objetivo é a clareza, não um resultado específico.
- Não se trata de intervenção em crises. É um processo deliberado e estruturado para pessoas que dispõem de tempo para refletir — não para situações de perigo imediato.
- Não é um trabalho de longo prazo. De uma a cinco sessões. Depois, uma decisão.
Para quem é?
O Aconselhamento de Discernimento é voltado para casais em que pelo menos um dos parceiros está considerando seriamente o divórcio ou a separação — mas ainda não tomou uma decisão definitiva. Ele ocupa o espaço entre “as coisas vão mal” e “chegamos ao fim”.
Você talvez reconheça essa dinâmica se:
Um de vocês mencionou o divórcio, mas o outro não está pronto para aceitá-lo. Um de vocês está fazendo terapia individual, tentando decidir se deve permanecer na relação. Vocês já tentaram terapia de casal anteriormente e tiveram a sensação de que uma pessoa estava totalmente engajada, enquanto a outra apenas cumpria tabela. Toda conversa sobre o relacionamento acaba virando uma discussão sobre se vale a pena salvá-lo.
Esse último ponto é importante. Quando um casal não consegue concordar se está trabalhando para manter o casamento ou para encerrá-lo, é quase impossível realizar uma terapia de casal eficaz. As duas pessoas estão tendo conversas diferentes — e nenhuma delas está sendo ouvida.
Os Três Caminhos
Ao final do Aconselhamento de Discernimento, o casal chega a um de três caminhos — não impostos pelo terapeuta, mas escolhidos pelo casal com uma visão mais clara do que quando começaram:
1
Comprometa-se com a terapia de casal.
Ambos os parceiros concordam em iniciar pelo menos seis meses de trabalho genuíno de casal — com o objetivo comum de reconstruir o relacionamento.
2
Manter o status quo
Nenhuma mudança por enquanto. O casal continua como está, sem se comprometer a trabalhar no casamento nem a terminá-lo.
3
Caminhar para a separação ou o divórcio
O casal decide encerrar o casamento — idealmente com mais clareza, menos caos e uma base melhor para o que vem a seguir, especialmente se houver filhos envolvidos.
O que importa é que a decisão seja tomada conscientemente — não por inércia, não por exaustão, não porque uma pessoa acabou vencendo a outra pelo desgaste.
O que Sarah e David me ensinaram
Sarah e David não concluíram o trabalho comigo. A vida acabou interferindo — houve conflitos de agenda e, depois, eles simplesmente pararam de vir. Terminamos em bons termos, mas sem uma resolução. Nunca soube o que aconteceu com eles.
No entanto, o que eles me deixaram foi algo que levo comigo para todas as sessões de terapia de casal desde então: a compreensão de que nem todo casal que busca terapia está, de fato, pronto para ela.
Atender um casal em que uma das partes ainda não decidiu se quer permanecer na relação é um dos erros mais comuns — e silenciosamente prejudiciais — no aconselhamento de casais. O parceiro que deseja continuar a relação sai de cada sessão sentindo-se esperançoso. Já o parceiro que está inclinado a terminar sai sentindo-se ainda mais encurralado. Com o tempo, aquele que queria salvar o casamento acaba mais magoado do que se o processo nunca tivesse começado.
"Nem todo casal que chega à terapia está pronto para ela. Às vezes, o trabalho mais importante acontece antes de o trabalho começar."
O Aconselhamento de Discernimento é o passo que antecede o passo seguinte. Ele não promete salvar o casamento. Promete algo mais honesto: clareza sobre o que você realmente deseja, para que — seja qual for o próximo passo: terapia, separação ou simplesmente mais tempo — você o escolha de olhos abertos.
Desde então, recebi treinamento em Aconselhamento de Discernimento. E, sempre que atendo um casal em que uma das pessoas parece estar com a mente em outro lugar, lembro-me de Sarah — e da pergunta que ela me fez e que eu não soube responder.
Agora, eu sei a resposta.
Se isso ressoa com você
Se você reconhece essa dinâmica no seu relacionamento — um de vocês pressionando, o outro se afastando, conversas que giram sempre em torno da mesma questão —, talvez você ainda não precise de terapia de casal. Pode ser que precise, antes, de Aconselhamento de Discernimento.
Leitura recomendada
Helping Couples on the Brink of Divorce
Bill Doherty & Steven Harris — the clinical protocol behind Discernment Counseling
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Ofereço Aconselhamento de Discernimento para casais que vivenciam ambivalência. As sessões são realizadas em inglês e português, de forma online, para residentes de Nevada, Flórida, Nova Jersey, Massachusetts e New Hampshire.